Os custos imensuráveis de uma tragédia nas ruas

21/12/2016 às 12:27 pm
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Publicado em: Correio Brasiliense

O Brasil gastou cerca de R$ 124,6 milhões com motociclistas vítimas de acidentes em um ano, valor muito superior aos investimentos em mobilidade. Mas há perdas impossíveis de medir: as sequelas físicas, mentais e o luto das famílias.

Cristiano Sacco passou 54 dias no hospital. O acidente afetou toda a família: exausta, Rita de Cássia, a mulher, sofreu uma queda na rua

“Amor, você deu comida para a gorda?” A mensagem da professora Rita de Cássia Massaut, 42 anos, enviada do WhatsApp para o marido, Cristiano Sacco Silva, 43, na manhã de 15 de agosto, ficou sem resposta. Ela queria saber se ele havia dado ração para a Penélope, a cadela da família, antes de sair para o trabalho. O silêncio foi rompido uma hora mais tarde pela ligação de um bombeiro militar dizendo que Cristiano havia ferido a perna em um acidente e que ela precisava ir para o Hospital de Base.

Só lá, Rita teve a dimensão exata da gravidade do caso. O marido estava em coma, com traumatismo craniano. Todas as vértebras cervicais se quebraram. Três costelas também. Uma delas perfurou o pulmão. O braço e a perna direita estavam quebrados em vários lugares. Teve fratura também na bacia e duas paradas cardiorrespiratórias, uma delas dentro da ambulância que o transferiria para um hospital particular. “Os médicos não deram esperança de que ele sobreviveria. Depois, avaliaram que ele ficaria em estado vegetativo”, relembra Rita.

Após 54 dias no hospital, 45 deles na Unidade de Terapia Intensiva, Cristiano contrariou todos os prognósticos. Fala, vai a pé para a fisioterapia, se alimenta e, há cerca de 20 dias, começou a recuperar a memória. O acidente afetou a rotina de todos. O filho, Lucas, de 20 anos, trancou a faculdade. A caçula, Aline, 16, trancou o balé, uma paixão, e retomou as aulas um mês depois. Rita se desdobra nos cuidados com Cristiano, com a casa, os filhos e o trabalho. “Ela passa o dia cuidando de todo mundo. Não se alimenta direito. Estava caminhando com a nossa filha e apagou. Caiu no meio da rua com o rosto no chão”, relata Cristiano. O tombo provocou uma distensão dos ligamentos do ombro esquerdo de Rita, e ela danificou os dentes.

Se o luto e a luta dos sobreviventes é imensurável, os gastos para socorrer e tratar os acidentados — motociclistas ou não — são possíveis de ser calculados. No primeiro dia da série Motociclistas: jovens e condenados à morte, o Correio mostrou que, por ano, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula em R$ 50 bilhões os gastos com acidentes de trânsito. Para se ter uma ideia de como esse valor é alto, Carvalho cita três exemplos, dois deles relacionados a investimentos em mobilidade. Com esse dinheiro daria para construir pelo menos 40 metrôs como o de Brasília ao custo de R$ 1,2 bilhão cada.

Ele também traça um paralelo com os investimentos de um dos maiores projetos de incentivo à mobilidade urbana, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Carvalho lembra que, no auge do investimento do PAC, o governo aplicou R$ 10 bilhões por ano. Significa que, em um ano, o país perdeu cinco vezes mais com acidentes do que o governo investiu em mobilidade. “O rombo nas contas públicas anunciado pelo governo federal este ano é de R$ 120 bilhões. A cada dois anos, perdemos com o trânsito o equivalente ao deficit nas contas que nos levou a essa enorme crise econômica. O dinheiro está escorrendo pelo ralo. O investimento no transporte público e em infraestrutura de segurança viária é uma parte muito pequena em relação ao que se perde todo o ano no atendimento às vítimas”, lamenta.

O Correio solicitou ao Ministério da Saúde o número de motociclistas mortos no Brasil e no DF entre 1998 e 2015, além dos custos do país com essa parcela da população vítima de acidentes. Nove dias depois, recebeu as informações referentes apenas ao período de 2008 a 2014. Os dados revelam que, em 2014, o Brasil gastou cerca de R$ 124,6 milhões com motociclistas vítimas de acidentes, valor quase três vezes maior que o de 2008.

No Distrito Federal, o gasto com as vítimas de acidentes sobre duas rodas está maior: eram R$ 704 mil em 2008 e agora, R$ 1 milhão. Valores que oscilam ao longo do tempo. Em 2011, por exemplo, registrou-se o maior número de internações e de gastos: 1.161 entradas em hospitais ao custo de R$ 1,2 milhão (veja ilustração).

Por meio da assessoria de comunicação, o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde informou que foram 12.604 mortes de motociclistas em 2014, número 41% maior que o registrado em 2008. “Parte do aumento de acidentes envolvendo motos se deve ao crescimento vertiginoso da frota no país. Entre 2003 e 2013, o número de motocicletas aumentou 247,1%, enquanto a população teve um crescimento de 11%.”

A epidemia de mortes de motociclistas tem como uma das causas indiretas a falta de investimento do poder público em transporte de qualidade. Isso ficou evidente na pesquisa Caracterização do uso de motocicletas como meio de transporte urbano em Porto Alegre, conduzida pela especialista em Segurança Viária no WRI Brasil Cidades Sustentáveis Rafaela Machado. “Identificamos que a escolha por motocicletas está relacionada aos custos do veículo, à flexibilidade de seu uso e à insatisfação com o transporte coletivo. Isso não ocorre só em Porto Alegre, mas em várias cidades brasileiras”, explica.

O mesmo estudo revela que são pagas por ano, no Brasil, mais de 500 mil indenizações por lesões permanentes. Dessas, 76% são para motociclistas. O impacto econômico e social é inegável. Além de precisarem abandonar suas atividades profissionais, as famílias também são impactadas prestando auxílio aos sobreviventes e, em alguns casos, tendo de largar seus empregos. “Esse é um impacto direto na juventude do país, que tem um desvio de rota abrupto e sem volta logo no início de sua vida profissional e que afeta de forma geral a capacidade produtiva do país”, afirma Rafael Machado.

Apesar dos números das tragédias e dos custos, faltam políticas públicas para conter o avanço do problema. No Brasil, parte das ações para a redução das vítimas de trânsito estão sob a responsabilidade do Ministério das Cidades e do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), além de órgãos estaduais e municipais. A reportagem questionou quais ações o governo federal tem adotado para frear as tragédias envolvendo motociclistas, seja por meio de campanhas educativas, seja por esforço legal. A resposta veio por meio da assessoria de comunicação e não traz ações pontuais focadas nos motociclistas.

O Ministério das Cidades e o Denatran listaram a obrigatoriedade do simulador no processo de formação de condutores de automóveis; a exigência de exames toxicológicos; e as alterações no código de trânsito promovidas pela Lei nº 13.281, em vigor desde novembro. Essa legislação aumentou o valor das multas, mudou as velocidades das rodovias, entre outras medidas. Segundo os órgãos federais, essas ações refletirão na segurança de quem anda de moto. “Ações sistêmicas junto aos municípios integrados ao Sistema Nacional de Trânsito, promovidas pelo Denatran, têm trazido resultados práticos que demonstram a importância das mesmas na redução das mortes no trânsito, sendo positivas para os motociclistas.”

No Distrito Federal, o Diretor de Policiamento e Fiscalização de Trânsito, Silvaim Fonseca, diz que, há dois anos, motociclistas são abordados diariamente em blitzes. A ação tira das ruas centenas de veículos com pneus carecas e condutores sem habilitação, por exemplo. Além disso, foram feitas 55 ações educativas com foco nos motociclistas entre junho e setembro deste ano, atingindo um público de 88 mil pessoas.

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