Manutenção de carros se sai bem na crise

31/10/2016 às 2:31 pm

Publicado em: DCI

É com as mãos no motor de uma de suas paixões, um automóvel MP Lafer 78, que o borracheiro Gilberto Martins comemora o bom momento de seu negócio em meio à crise econômica. Na profissão há 40 anos, sempre no bairro onde nasceu, a Mooca, na zona leste de São Paulo, ele viu a venda de pneus novos e usados crescer 25% nos últimos doze meses. “Muita gente adiou a compra do carro novo, mas quer trocar os pneus do antigo pelo menos. Quando não dá, acaba recauchutando”, conta Martins, cuja clientela é composta, em sua maioria, por autônomos que precisam do automóvel para trabalhar e de mulheres que levam e buscam filhos na escola.  “Muitos clientes perderam o emprego, estão se virando por conta própria e precisam ter, pelo menos, o pneu do carro em ordem”, revela.

No caso das mulheres, que corresponde a 40% do movimento de seu negócio, Martins atribui a elas parte de seu bom momento. “Mulher é mais cautelosa e não deixa pneu ficar careca porque se preocupa muito mais que os homens com a segurança da família. Ela  até deixa de comprar roupa e sapato, mas não coloca a criançada em risco no trânsito”, avalia o borracheiro, convocando os homens para que sigam o exemplo feminino. E dá uma dica para os colegas de setor. “Nunca coloque fotos de mulheres seminuas  nas paredes do seu negócio. O público feminino não gosta que as crianças vejam. Com respeito,  o dono no negócio terá a cliente mesmo em uma baita crise”, recomenda.

No outro extremo da cidade, na Vila Piauí, na divisa dos municípios de São Paulo e Osasco, o cenário aquecido para quem trabalha com a manutenção de veículos se repete. Lídio Claudio, mecânico há 35 anos na região, registrou aumento de 30% nos pedidos de mecânica de manutenção e funilaria de automóveis nos últimos 12 meses. “Falta emprego e crédito para comprar o carro novo, então o cliente cuida do que tem”, avalia o mecânico, cuja equipe de quatro profissionais precisou ser reduzida à metade no último ano, mesmo com o aumento do serviço. “Por outro lado, tive que reduzir a mão de obra porque todas as contas subiram. A inflação levou lá para cima o aluguel, água e a luz”.

Números do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo (Sindirepa-SP) confirmam que o movimento nas oficinas do estado aumentou no último ano. De acordo com a entidade, que não envolve as concessionárias de fabricantes, o volume de serviço cresceu, em média, 20%, embora o tíquete médio tinha permanecido no mesmo patamar há um ano. “O tíquete médio mensal está em R$ 650, o mesmo que há um ano. Isso quer dizer que o que cresceu foi a frequência do cliente nas oficinas, já que os veículos usados requerem cada vez mais manutenção”, explica o presidente da entidade, Antonio Fiola.

Segundo ele, o cenário deve permanecer inalterado ou mesmo ter uma leve melhora até que os primeiros sinais de saída da recessão apareçam. Isso porque muitos veículos novos comprados há dois, três anos, estão perdendo a garantia de fábrica e os proprietários, sem substituí-los por um novo por conta da crise, terão que procurar as oficinas independentes.

Dados da Federação Nacional das Associações de Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) mostram que as vendas de veículos semi-novos – com até três anos de uso –  e usados no País cresceram 5,4% em agosto deste ano, em relação a julho, passando de 1.198.227 unidades para 1.262.691 unidades. Os números levam em conta automóveis e motos. No acumulado do ano, porém, a queda é de 1,8% em relação ao mesmo período de 2015, em função da recessão. Ao mesmo tempo, as vendas de carros, comerciais leves, caminhões e ônibus novos no Brasil recuaram 11,26% em agosto, na comparação com o mesmo mês de 2015, segundo dados da federação dos concessionários, a Fenabrave.

No Jardim Ângela, na zona sul, os irmãos Pedro e Lavásio Silva mantêm uma oficina de motos há dez anos. Nos últimos doze meses, o movimento aumentou 15%. “O que verificamos foi que muita gente trocou carro por moto para economizar, e muitos desempregados passaram a fazer bico de motoboy”, conta Lavásio. “Por outro lado, os rapazes vinham aqui e mexiam no motor, faziam pintura. Agora só contratam o mínimo necessário para continuar com a ´caranga´ em dia”, complementa. Com a “guerra” entre motoboys e condutores de veículos de passeio no trânsito paulistano, a campeã de faturamento na oficina dos irmãos Silva permanece a mesmo há cinco anos: a troca de retrovisor. “É um dos serviços mais baratos. Então o nosso faturamento se mantém estável, mesmo com o aumento de serviço no último ano”. “Vai ser bacana mesmo quando o pessoal retomar o emprego ou conseguir aumentar a renda familiar, pois ainda tá fraco”.

Otimismo não falta ao setor, desde o presidente do Sindirepa-SP aos donos de oficinas independentes. “O momento é difícil para o País em geral, mas vai melhorar e todos ganharão com isso, quem trabalha com veículos novos e com usados”, acredita Fiola. O borracheiro Martins lembra que, aos 66 anos, já passou por diversas crises econômicas, sempre com a oficina na Mooca, um dos bairros historicamente conhecidos pela  imigração italiana, que  deixa como forte marca a paixão por automóveis. “Crise vai e vem, o negócio é erguer a cabeça e seguir trabalhando.”

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