Número de blindagens de carros subiu 43% no Rio

31/10/2016 às 2:56 pm

Publicado em: O Globo

Há três meses, um empresário, que pediu para não ter o nome divulgado, dirigia de volta para casa depois do trabalho. Morador da Barra da Tijuca, ele conversava com a mulher, que estava no banco do carona, quando foi fechado por um veículo e precisou pisar no freio numa rua em Jacarepaguá. Em seguida, dois bandidos saíram do automóvel com pistolas em punho, mandando que o casal descesse. Ao ver a cena, o empresário acelerou em direção aos homens, que o atacaram a tiros.

– Eu tinha acabado de blindar meu carro. Isso foi decisivo para sair vivo daquele pesadelo – relembra, aliviado. Seu carro foi atingido por disparos, mas ele conseguiu se desvencilhar dos criminosos. – Ninguém deve ter a reação que eu tive. O problema é que as pessoas estão cansadas de esperar por segurança e acabam tentando amenizar da maneira que dá. Já tive um carro roubado este ano, por isso decidi blindar.

A sensação de insegurança crescente tem despertado na população fluminense o desejo de buscar proteção enquanto dirige. Este ano, entre janeiro e agosto, foram blindados 1.922 carros no Estado do Rio, de acordo com a Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin). Ano passado, no mesmo período, 1.342 veículos passaram pelo mesmo procedimento – um crescimento de 43%.

Os números estão atrelados a uma escalada nas estatísticas criminais. No mesmo período, por exemplo, a quantidade de carros roubados no estado saltou de 20.371, em 2015, para 25.783 este ano – uma alta 26,5% -, de acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP). Já os casos de latrocínio (roubo seguido de morte) cresceram 28%, pulando de 111 casos para 143.

Outro número assustador é o de casos de bala perdida. De acordo com a Polícia Civil, em todo o Estado do Rio, houve 846 registros entre janeiro e outubro deste ano, o que dá, em média, quase três vítimas por dia. A polícia não informou os dados de 2015

– O mercado de blindagem é volátil. Se acontece um crime de grande repercussão, como o caso daquela médica (Gisele Palhares Gouvêa) que foi baleada enquanto dirigia no acesso à Linha Vermelha, há quatro meses, no dia seguinte há uma enxurrada de clientes na empresa querendo blindar o carro – afirma Rodrigo Pereira, diretor da MF4 Blindagem. – Depois de alguns anos em baixa, o mercado se recuperou com a alta da violência.

Em São Paulo, por exemplo, a melhora nos indicadores criminais, conforme apontam levantamentos divulgados recentemente pela Secretaria de Segurança Pública daquele estado, fez o número de blindagens cair 13% nos últimos dois anos. Em 2014, de janeiro a agosto, foram blindados 9.579 veículos, contra 8.329 este ano no mesmo período.

No Rio, no início da década, enquanto a cidade vivia a era das expansões das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o mercado de blindagem entrou em crise, com algumas empresas chegando a fechar as portas. Uma advogada, que pediu para não ter o nome divulgado, conta que chegou a se desfazer de um carro com as placas protetoras em 2011.

– Ter um carro blindado se tornou algo supérfluo naquela época – afirma ela. – Hoje, ninguém da minha família sai de casa em veículo que não seja blindado.

De acordo com especialistas do setor, o Estado do Rio tem hoje cerca de 13.400 carros blindados. O processo tem alguns efeitos colaterais. Para começar, é irreversível, não sendo possível, por exemplo, retirar as placas de aço depois de soldadas. Outro fator a se pensar é que a instalação dói no bolso: em algumas empresas, o procedimento mais barato não sai por menos de R$ 42 mil. Mas, dependendo do tipo de automóvel e de ajustes necessários, esse valor pode dobrar ou até triplicar.

Há ainda outra questão que obriga o interessado a pôr na balança os prós e contras do reforço na lataria. Blindado, o veículo chega a carregar 180 quilos a mais, o que pode comprometer a vida útil do motor e aumentar substancialmente as despesas com combustível.

– A pessoa que manda blindar um carro está preocupada com segurança, porque dinheiro ela acaba perdendo – diz Fábio Rovedo de Melo, conselheiro da Abrablin. – O carro blindado é mais difícil de ser vendido e exige manutenção periódica.

A blindagem máxima permitida pelo Exército – agente regulador do serviço no Brasil e responsável pela fiscalização das empresas – é do tipo III-A, capaz de proteger contra disparos de armas curtas (pistolas e revólveres) e submetralhadoras. A proteção, porém, não barra tiros de fuzil. O nível mais alto de blindagem é o IV, que protege o veículo de todas as armas, além de granadas. A categoria, contudo, não é permitida para civis.

Tornar-se dono de um blindado também exige percorrer um caminho longo e burocrático. Quando o proprietário toma a decisão de reforçar a lataria do veículo, é preciso conseguir um documento expedido pelo Exército, que exige a apresentação de antecedentes criminais. Pessoas, por exemplo, que já tenham cometido crimes não podem obter a licença. O processo dura alguns dias e custa cerca de R$ 500.

O documento é usado para dar entrada no pedido de blindagem nas empresas. Leva-se de 30 a 45 dias úteis para a conclusão do processo. Todo esse tempo é necessário para desmontar o carro, instalar as placas protetoras em seu interior e trocar os vidros por modelos mais espessos. O trabalho termina depois que o veículo é vistoriado pelo Detran. Sem essa avaliação, o motorista poderá ter o automóvel apreendido numa blitz da Polícia Militar, por exemplo.

Para a cientista social Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, o carro blindado pode salvar uma vida uma vez, mas trata-se de uma medida paliativa.

– Investir nesse segmento ajuda a melhorar a sensação de segurança. Mas uma hora o motorista precisa sair do carro. O que deve haver são operações das polícias para desarticular as quadrilhas que vendem armas e munição aos traficantes. Sabemos que os bandidos estão armados com fuzis em várias favelas do Rio. Um disparo desse tipo, com ou sem blindagem, pode ser fatal.

 

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